O rastreamento do câncer de pulmão é feito, na prática, com tomografia de baixa dose, que reduz a mortalidade em pessoas de alto risco, sobretudo fumantes e ex-fumantes com longa história de tabagismo
1,2. Novas tecnologias estão em avaliação para complementar o rastreamento. Algoritmos de inteligência artificial conseguem estimar o risco de câncer a partir de uma única tomografia
3, e, no sangue, os testes de detecção precoce de múltiplos cânceres, conhecidos pela sigla MCED, identificam padrões de metilação no DNA liberado por tumores. Em setembro de 2026, um comitê consultivo da FDA, a agência reguladora americana, votou a favor da aprovação do Galleri, apesar de o ensaio randomizado NHS-Galleri não ter reduzido os diagnósticos em estágio III ou IV
4,5. Em outubro, o teste passou a ser oferecido no Brasil pela rede privada, sem cobertura dos planos de saúde e como complemento aos rastreamentos já recomendados.
Esses testes, no entanto, dependem do DNA liberado pelo próprio tumor e, por isso, têm menor sensibilidade justamente nas fases iniciais. Na validação clínica do Galleri, a sensibilidade foi de 16,8% para tumores em estágio I
6. Essa limitação pesa mais ainda para quem está fora do rastreamento, como pessoas que nunca fumaram ou sem acesso à tomografia, nas quais o diagnóstico costuma ocorrer apenas após o surgimento de sintomas, muitas vezes em fase avançada.
Outro desafio está nas lesões precursoras, que antecedem o câncer invasivo e têm comportamento imprevisível. Nas vias aéreas, cerca de metade das lesões de carcinoma
in situ progride para câncer, enquanto a outra metade regride ou permanece estável
7. Sem um marcador capaz de distinguir esses grupos, a conduta se limita à vigilância ou à remoção da lesão, e nenhum tratamento demonstrou capacidade de impedir a progressão. Há indícios de que o sistema imune ajuda a definir esse desfecho. Em estudo publicado em 2020 na revista científica
Cancer Discovery, as lesões que regrediram tinham mais células imunes infiltrando o tecido do que as que progrediram, e estas exibiam sinais de escape imunológico
8. Se a evolução dessas lesões depende da resposta imune, essa resposta pode deixar sinais no sangue antes mesmo do surgimento do câncer.
Essa é a premissa de um estudo publicado em outubro de 2026 na revista
Nature por pesquisadores da
University College London9. O foco foram as células T reguladoras, linfócitos que freiam a resposta imune. Um subtipo ativado dessas células se acumulou nas lesões de alto grau das vias aéreas, precursoras do carcinoma escamoso
9. Células do mesmo clone circulavam no sangue, e seus níveis foram mais altos nas pessoas com lesões de maior risco
9. Ao contrário dos testes que procuram o DNA do tumor, esse sinal vem da resposta imune do próprio organismo à lesão precursora.
O estudo também mostrou uma possibilidade de desfazer esse circuito. Em camundongos expostos a um carcinógeno que reproduz a formação do carcinoma escamoso, a sinalização pela via da enzima PI3K estava aumentada nessas células
9. A forma delta dessa enzima predomina nas células do sistema imune e é necessária para a função supressora das células T reguladoras
10. A inibição da PI3K delta, iniciada ainda na fase pré-invasiva, interrompeu o circuito e aumentou, ao redor dos tumores, a presença de linfócitos T citotóxicos, capazes de destruir células tumorais
9. A proporção de animais com tumores pulmonares caiu de 83% para 42%, e nenhum tumor grande se formou
9.
Em 89 pacientes com câncer de pulmão inicial detectado no rastreamento por tomografia, níveis elevados dessas células no tumor e no sangue se associaram a risco cerca de quatro vezes maior de recidiva ou morte
9. O foco, no entanto, é agir antes que a lesão precursora se torne câncer invasivo. O exame de sangue poderia complementar a tomografia na avaliação de risco, e o bloqueio do circuito poderia interromper a progressão
9.

Os resultados com o bloqueio do circuito ainda são pré-clínicos e precisam ser interpretados com cautela. O efeito foi demonstrado em um modelo de carcinoma escamoso, e sua extensão às lesões precursoras do adenocarcinoma, tipo mais frequente de câncer de pulmão, ainda precisa ser confirmada. O exame de sangue também depende de validação prospectiva, e sua especificidade pode ser reduzida por inflamações e infecções, que alteram essas células
9. O composto testado nos camundongos, o
PI-3065, é uma ferramenta de pesquisa, sem uso clínico. Na mesma classe farmacológica, o
idelalisibe, da Gilead, apesar de pouco utilizado, é aprovado nos Estados Unidos e na Europa para leucemia linfocítica crônica recidivada, mas causou hepatotoxicidade imunomediada frequente e muitas vezes grave em primeira linha, possivelmente pela própria inibição das células T reguladoras
11. Como o tratamento seria oferecido a pessoas sem câncer, a segurança é a principal barreira.
Enquanto os testes de sangue disponíveis procuram o tumor já formado, o estudo propõe procurar a resposta imune que o antecede. As mesmas células podem indicar o risco e ser o alvo do tratamento. Se ensaios clínicos em pessoas de alto risco confirmarem os achados com inibidores de PI3K delta mais seguros, essa pode ser a primeira estratégia farmacológica capaz de impedir que lesões precursoras se tornem câncer de pulmão.
Referências:
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