Editores da série MOC Antonio C. Buzaid - Fernando C. Maluf - Carlos H. Barrios
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Editor-convidado Caio Max S. Rocha Lima

A relação entre sistema nervoso e câncer tem ganhado espaço na compreensão da biologia tumoral. O que antes era visto como uma influência indireta hoje é reconhecido como um eixo ativo, no qual sinais neurais modulam diretamente o microambiente tumoral e a resposta imune.

Nesse cenário, a ativação do sistema nervoso simpático e a liberação de catecolaminas passam a compor esse eixo, com impacto direto sobre a imunidade tumoral. Esse mecanismo ganha ainda mais relevância na imunoterapia, em que a resposta clínica depende da atividade funcional dos linfócitos T. Assim, os beta-bloqueadores emergem como uma estratégia potencial de modulação da resposta aos inibidores de checkpoint.1, 2

Evidências clínicas com diferentes tumores Os dados clínicos mais consistentes até o momento sugerem um possível benefício do bloqueio β-adrenérgico, especialmente no contexto da imunoterapia. Em câncer de pulmão não pequenas células tratado com inibidores de checkpoint, um estudo retrospectivo com 109 pacientes, dos quais 28 utilizavam beta-bloqueadores concomitantemente, demonstrou que o uso dessas medicações foi associado a melhora de sobrevida livre de progressão (HR 0,58; IC95% 0,36–0,93). A despeito das limitações, os achados reforçam a hipótese de que a sinalização adrenérgica pode interferir diretamente na eficácia da imunoterapia.3 Esse racional é corroborado por dados prospectivos iniciais em melanoma. Em estudo fase I com pacientes com melanoma metastático virgens de tratamento, foi avaliada a combinação de propranolol e pembrolizumabe. A combinação mostrou bom perfil de segurança, sem toxicidade limitante de dose, e taxa de resposta objetiva de 78%. A dose de propranolol recomendada para fase II foi definida como 30 mg duas vezes ao dia. Além disso, foram observados sinais de ativação imune, com aumento de IFN-γ e redução de IL-6 nos pacientes respondedores, reforçando o papel do bloqueio adrenérgico na reversão da imunossupressão tumoral.4 Esses achados motivaram a avaliação em estudo fase II (NCT02962947) e são corroborados por dados de uso off-label, reforçando o racional da combinação no melanoma avançado.5 Além da imunoterapia, há dados sugerindo efeito dos beta-bloqueadores também em combinação com quimioterapia. Em câncer de ovário, foi realizada avaliação retrospectiva de 1425 pacientes, sendo o uso dessas medicações associado a melhora de sobrevida global, com diferença mais pronunciada entre pacientes em uso de beta-bloqueadores não seletivos, cuja sobrevida mediana foi substancialmente superior à observada com agentes β1-seletivos (94,9 vs 38,0 meses; p<0,001).6. A sinalização β-adrenérgica e o eixo tumor-cérebro A relação entre sinalização β-adrenérgica e imunossupressão tumoral foi caracterizada de forma experimental em estudo recente publicado na revista Nature, que descreve um circuito funcional entre tumor, sistema nervoso central e sistema imune.1 Em modelo murino de adenocarcinoma de pulmão, foi demonstrado que o próprio tumor induziu inervação por fibras sensoriais vagais, capazes de transmitir sinais ao tronco encefálico e desencadear uma resposta simpática eferente, resultando em aumento local de noradrenalina no microambiente tumoral.
O efeito desse circuito foi predominantemente imunológico. A ativação do receptor β2-adrenérgico (ADRB2) em macrófagos associados ao tumor promoveu um fenótipo imunossupressor, caracterizado por aumento de ARG1 e redução da apresentação antigênica, com consequente diminuição da atividade de linfócitos T CD8+. Esse processo levou a redução da infiltração e da função efetora dos linfócitos no tumor, estabelecendo um ambiente permissivo ao crescimento tumoral. Além disso, a relevância funcional do eixo foi demonstrada de forma consistente. A interrupção da via por denervação sensorial ou bloqueio farmacológico de ADRB2 resultou em redução significativa do crescimento tumoral e aumento da infiltração de linfócitos T CD8+. Por outro lado, a ativação farmacológica da via β2-adrenérgica foi capaz de reverter esse efeito, restaurando o crescimento tumoral. Do ponto de vista translacional, o modelo proposto ajuda a explicar por que o bloqueio dessa via pode favorecer a resposta imune e potencializar a eficácia da imunoterapia. Mais do que um efeito indireto, o bloqueio β-adrenérgico passa a ser compreendido como intervenção sobre um circuito biológico estruturado. Perspectivas A integração entre dados clínicos e mecanismos biológicos recentes posiciona a sinalização β-adrenérgica como um eixo relevante de imunossupressão tumoral, com possíveis implicações para a oncologia. O que antes era interpretado como uma associação incidental passa a ser compreendido como um mecanismo biologicamente plausível, capaz de influenciar a resposta à imunoterapia. Nesse sentido, o uso de beta-bloqueadores pode atuar como modulador da resposta imune, ainda sustentado predominantemente por evidências retrospectivas e estudos iniciais, e que requer validação em estudos prospectivos. Se confirmada, essa abordagem poderá contribuir para a otimização da imunoterapia, incorporando a interface entre sistema nervoso e câncer à prática oncológica. Referências: 1. Wei HK, et al. Nature. 2026;650(8103):1007-1016. 2. Tumor-Brain Communication Mediates Immune Escape of Lung Cancer. Cancer Discov. 2026:OF1. 3. Oh MS, et al. Clin Lung Cancer. 2021;22(1):e57-e62. 4. Gandhi S, et al. Clin Cancer Res. 2021;27(1):87-95. 5. De Giorgi V, et al. JAMA Oncol. 2018;4(2):e172908. 6. Watkins JL, et al. Cancer. 2015;121(19):3444-51.

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