Um anticorpo monoclonal convencional reconhece um alvo único, enquanto o anticorpo biespecífico pode reconhecer dois alvos ao mesmo tempo, e essa diferença aparentemente simples abre um novo espaço terapêutico. Em vez de apenas bloquear uma via, essas moléculas conseguem aproximar uma célula imune do tumor, neutralizar dois mecanismos de escape simultaneamente ou combinar bloqueio de sinalização com modulação do microambiente. Não devem ser confundidas com os ADCs (conjugados anticorpo-droga), nos quais o anticorpo serve como vetor para entregar um agente citotóxico diretamente à célula tumoral, como ocorre com o
trastuzumabe deruxtecana. No biespecífico, o próprio anticorpo é o agente terapêutico. A classe deixou de ser uma promessa experimental e ocupa hoje um espaço crescente no tratamento de tumores sólidos.
Subtipo de anticorpos biespecíficos: engajadores de células T
Os engajadores de células T possuem um braço que se liga ao antígeno tumoral e outro que captura o CD3 na superfície do linfócito T, forçando a aproximação física entre as duas células. A morte celular tumoral é mediada pela própria célula T ativada, independentemente do reconhecimento pelo complexo MHC convencional. É esse mecanismo que sustenta o
tarlatamabe (DLL3×CD3), aprovado para o câncer de pulmão de pequenas células extenso recidivado após quimioterapia à base de platina. Com taxa de resposta objetiva de 40% e sobrevida global mediana de mais de 13 meses em segunda linha,
tarlatamabe representa o primeiro da sua classe com impacto clínico estabelecido em tumores sólidos, numa indicação em que a maioria dos pacientes enfrentava sobrevidas inferiores a 6 meses
1.
Os engajadores de células T também vêm sendo estudados no câncer de próstata. O
xaluritamig (STEAP1×CD3) adota um formato com dois sítios de ligação ao alvo tumoral (STEAP1) e apenas um ao CD3, desenho que busca maximizar a avidez pelo tumor e reduzir a toxicidade do engajamento de células T. No estudo de fase 1 publicado na
Cancer Discovery, em pacientes com câncer de próstata metastático resistente à castração majoritariamente pré-tratados com taxano, alcançou redução de pelo menos 50% do PSA em 49% dos pacientes e taxa de resposta objetiva de 24%, números que subiram para 59% e 41% nas doses-alvo mais altas. Os resultados validaram o STEAP1 como alvo em próstata e sustentaram o avanço da molécula para estudos pivotais2.
Subtipo de anticorpos biespecíficos: bloqueio dual
Os biespecíficos de bloqueio dual atuam sem engajamento direto de células T. Eles bloqueiam dois alvos moleculares ao mesmo tempo, o que pode significar a interrupção simultânea de duas vias de sinalização oncogênica, o bloqueio de dois checkpoints imunes ou a combinação entre modulação imune e bloqueio da angiogênese tumoral. O amivantamabe (EGFR×MET) é um dos exemplos mais maduros dessa estratégia. Indicado para o adenocarcinoma de pulmão com mutações do EGFR, atua bloqueando simultaneamente a sinalização oncogênica principal e a via de escape mediada pelo MET. Na análise final do estudo MARIPOSA, sua combinação com lazertinibe em primeira linha demonstrou superioridade em sobrevida global frente ao osimertinibe no adenocarcinoma de pulmão com mutação clássica de EGFR (HR 0,75; IC95% 0,61–0,92; p=0,005), com sobrevida global em três anos de 60% versus 51% e mediana ainda não atingida no braço da combinação, consolidando o regime como uma das opções de intensificação de primeira linha3.
Outro biespecífico de bloqueio dual com dados recentes é o rilvegostomig, anticorpo que bloqueia simultaneamente PD-1 e TIGIT, dois receptores de checkpoint imune que suprimem a atividade antitumoral das células T. A lógica é que a inibição dupla de checkpoints gere ativação imune superior à do bloqueio isolado de PD-1. No estudo de fase 2 I-SPY 2.2, apresentado na ASCO 2026, foi combinado ao ADC trastuzumabe deruxtecana como terapia neoadjuvante em câncer de mama HER2-negativo de alto risco, alcançando taxa de resposta patológica completa estimada de 52-57% no subgrupo com tumores imuno-positivos, acima dos limiares de eficácia pré-definidos4.
Imunoterapia e antiangiogênese em uma única molécula
A combinação de bloqueio de checkpoint imune e bloqueio de VEGF em uma mesma molécula é uma das estratégias com maior repercussão clínica recente nessa classe. A angiogênese tumoral disfuncional não apenas sustenta o crescimento do tumor, mas contribui para um microambiente imunossupressor, reduzindo a infiltração de linfócitos T e favorecendo o recrutamento de células mieloides supressoras. Ao concentrar a inibição de VEGF e de PD-1 ou PD-L1 na mesma estrutura, o biespecífico pode coordenar esses efeitos no mesmo sítio e ao mesmo tempo, com relevância farmacológica potencialmente distinta da combinação de dois anticorpos administrados separadamente.
O exemplo mais expressivo veio do ivonescimabe, que bloqueia PD-1 no linfócito e VEGF no microambiente tumoral. Os resultados de sobrevida global do estudo de fase 3 HARMONi-6 foram apresentados na sessão plenária da ASCO 2026 e publicados simultaneamente no The Lancet. O estudo randomizou 532 pacientes com câncer de pulmão escamoso avançado sem tratamento prévio para receber ivonescimabe mais quimioterapia ou tislelizumabe mais quimioterapia, com 39% apresentando PD-L1 TPS inferior a 1%. Na análise interina, ivonescimabe reduziu o risco de morte em 34% em relação ao anti-PD-1 mais quimioterapia (HR 0,66; IC95% 0,50–0,87), com mediana de sobrevida global ultrapassando dois anos, um marco raro no carcinoma escamoso avançado. Foi o primeiro ensaio de fase 3 em câncer de pulmão a demonstrar superioridade em sobrevida global sobre um regime baseado em anti-PD-1 mais quimioterapia, com benefício mantido inclusive nos pacientes com baixa ou nula expressão de PD-L15.
Um segundo biespecífico do mesmo formato reforçou essa perspectiva na ASCO 2026. O pumitamig bloqueia PD-L1 no tumor e VEGF-A no microambiente, atuando sobre o ligante no lado tumoral em vez do receptor no linfócito. Os dados de fase 2 do estudo ROSETTA Lung-02 foram apresentados em sessão oral rápida, em 44 pacientes com câncer de pulmão não pequenas células avançado sem tratamento prévio e sem alterações genômicas acionáveis. Pumitamig mais quimioterapia alcançou taxa de resposta objetiva global de 70% e controle de doença de 100% na fase de otimização de dose, com respostas confirmadas de até 81,8% no subtipo escamoso e atividade observada em todos os níveis de expressão de PD-L16. Estudos globais de fase 3 já estão em andamento.
Quando as duas classes se encontram: o ADC biespecífico
Biespecífico e ADC deixam de ser categorias separadas nos ADCs biespecíficos, que combinam o reconhecimento de dois antígenos com a entrega de um payload citotóxico. O izalontamabe brengitecan ou iza-bren (BL-B01D1) é o exemplo mais avançado dessa fusão. Trata-se de um ADC cujo anticorpo reconhece ao mesmo tempo EGFR e HER3, dois receptores frequentemente co-expressos em tumores epiteliais e associados à resistência terapêutica, acoplado a um inibidor de topoisomerase 1. A dupla especificidade amplia a cobertura tumoral e reduz a janela de escape por perda de um único antígeno. Na ASCO 2026, o estudo de fase 3 PANKU-Breast02 mostrou, em câncer de mama triplo-negativo previamente tratado com taxano, sobrevida livre de progressão mediana de 8,5 meses contra 3,1 meses com a quimioterapia de escolha do investigador, uma redução de 71% no risco de progressão ou morte (HR 0,29; IC95% 0,22–0,38; p<0,0001), com benefício concomitante em sobrevida global7.
Perspectivas
Os anticorpos biespecíficos não são uma classe homogênea, mas um conjunto de estratégias com lógicas distintas, o que torna a escolha entre formatos cada vez mais dependente da biologia de cada tumor e do paciente. Com indicações aprovadas, dados maduros de fase 3 e novos formatos em desenvolvimento, a classe já ocupa um espaço concreto e crescente na oncologia de tumores sólidos.
Referências
1. Mountzios, et al. N Engl J Med. 393;349, 2025.
2. Kelly, et al. Cancer Discov. 14:76, 2024.
3. Yang, et al. N Engl J Med. 393:1681, 2025.
4. O'Sullivan, et al. J Clin Oncol. 44(suppl 17):LBA514, 2026.
5. Chen, et al. J Clin Oncol. 44(suppl 17):LBA4, 2026.
6. Peters, et al. J Clin Oncol. 44(suppl 17):8513, 2026.
7. Wu, et al. J Clin Oncol. 44(suppl 17):LBA1003, 2026.