Editores da série MOC Antonio C. Buzaid - Fernando C. Maluf - Carlos H. Barrios
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Editor-convidado Caio Max S. Rocha Lima

A neuropatia periférica induzida por quimioterapia está entre as toxicidades mais frequentes do tratamento oncológico e entre as que mais persistem após o seu término. Em metanálise com mais de 4 mil pacientes, a prevalência foi de 68,1% no primeiro mês após o fim da quimioterapia e de 30,0% após 6 meses ou mais¹. A lesão nervosa estabelecida é frequentemente irreversível e compromete a funcionalidade e a qualidade de vida dos sobreviventes por anos. Durante o tratamento, a neuropatia pode ainda exigir redução de dose ou interrupção precoce de esquemas com intenção curativa, com potencial impacto sobre o próprio resultado oncológico¹.

Apesar de conhecida há décadas, essa complicação continua sem prevenção eficaz. Dezenas de estudos randomizados testaram vitaminas, antioxidantes, anticonvulsivantes, antidepressivos e infusões de cálcio e magnésio, sem benefício consistente. A diretriz da American Society of Clinical Oncology (ASCO) não recomenda nenhum agente com essa finalidade². Na prática, a única forma comprovada de prevenção continua sendo reduzir a exposição ao agente neurotóxico. No câncer de cólon, por exemplo, o estudo IDEA mostrou que encurtar a adjuvância com oxaliplatina de 6 para 3 meses diminui de forma importante a neurotoxicidade³. Esse é hoje um dos principais argumentos para a redução do tempo de tratamento em pacientes selecionados.

Para a neuropatia já estabelecida, as opções terapêuticas são limitadas e de benefício discreto. A duloxetina é o único fármaco com benefício demonstrado em estudo randomizado de fase 3 e é recomendada pelas diretrizes da ASCO e da European Society for Medical Oncology (ESMO)²,⁴. O estudo CALGB 170601 incluiu 231 pacientes com neuropatia dolorosa após paclitaxel ou oxaliplatina. Após 5 semanas de duloxetina 60 mg, 59% dos pacientes relataram alguma redução da dor, contra 38% com placebo⁵. O benefício pareceu maior nos pacientes tratados com oxaliplatina do que nos que receberam taxanos⁵. Quando a duloxetina não pode ser usada, a ESMO admite o uso de pregabalina, gabapentina, antidepressivos tricíclicos e opioides, com base sobretudo na eficácia desses fármacos em outras dores neuropáticas⁴. Para a dormência e a perda de sensibilidade, nenhum tratamento farmacológico demonstrou benefício consistente. Nesses casos, a principal ferramenta continua sendo o ajuste do próprio esquema, com redução de dose, adiamento, substituição ou suspensão do agente neurotóxico².

Há ainda indícios de que o problema pode começar antes da primeira infusão. Em publicação recente na Nature Communications, modelos de câncer colorretal em camundongos e em primatas desenvolveram neuropatia periférica antes de qualquer tratamento. O quadro se associou a inflamação, alterações do metabolismo lipídico e danos à mielina, sem dor evidente⁶. Os dados ainda não foram confirmados em humanos, mas reforçam a lógica de proteger o nervo antes da exposição à quimioterapia.

Essa é a lógica de um estudo publicado em setembro de 2026 na revista Science por pesquisadores do MD Anderson Cancer Center, que avaliou uma nova estratégia farmacológica para a prevenção da neuropatia induzida por quimioterapia⁷. O agente testado foi a psilocibina, composto de origem natural com efeito alucinógeno, que atua como agonista do receptor de serotonina 5-HT2A e está em investigação para transtornos neuropsiquiátricos. Em camundongos tratados com cisplatina, duas doses profiláticas de psilocibina preveniram completamente a hipersensibilidade mecânica. Também atenuaram a alodinia ao frio e preservaram a acuidade tátil e a densidade de fibras nervosas intraepidérmicas⁷. Com administração antes de cada ciclo, a proteção se manteve ao longo de seis ciclos mensais de cisplatina e por mais de 8 meses de seguimento⁷. O efeito foi consistente nos modelos com paclitaxel e docetaxel. Em camundongos portadores de tumor, a psilocibina não alterou de forma mensurável o crescimento tumoral nem o perfil sistêmico de citocinas⁷.

O estudo também esclareceu como essa proteção acontece. As mitocôndrias, estruturas responsáveis pela produção de energia, precisam ser transportadas continuamente ao longo do nervo até as suas terminações nas mãos e nos pés. A quimioterapia interrompe esse transporte e compromete o suprimento de energia das terminações, o que leva à sua degeneração. Ao ativar o receptor 5-HT2A nos neurônios sensitivos, a psilocibina manteve esse transporte em funcionamento⁷. Além disso, um composto com a mesma ação sobre o receptor, mas sem efeito alucinógeno, também reproduziu o benefício⁷. A preservação do transporte mitocondrial foi observada também em fragmentos de nervos periféricos obtidos de 29 pacientes durante cirurgias e posteriormente expostos à cisplatina em laboratório. Nesse material, o tratamento prévio com psilocibina preservou o deslocamento das mitocôndrias ao longo das fibras nervosas⁷.

Esses resultados motivaram o desenho do NeuroGuard (NCT07227909), estudo de fase 2 randomizado e aberto do MD Anderson, com previsão de início em novembro de 2026⁸. Serão incluídos adultos com câncer de mama, colorretal ou de cabeça e pescoço candidatos a quimioterapia adjuvante com taxanos ou derivados de platina. O grupo experimental receberá psilocibina 25 mg por via oral, em sessões supervisionadas. Serão duas doses com intervalo de uma semana antes do primeiro ciclo e uma dose antes de cada um dos dois ciclos seguintes⁸. Um segundo grupo receberá psilocibina 1 mg por via oral, em casa, em dias alternados antes de cada um dos três primeiros ciclos. Essa dose é considerada subperceptiva, ou seja, abaixo do limiar em que os efeitos psicoativos costumam ser percebidos⁸. O terceiro grupo receberá apenas o tratamento de suporte habitual. O desfecho principal será a proporção de pacientes com piora de pelo menos 25% nos sintomas sensitivos da neuropatia, como formigamento e dormência, avaliados por questionário respondido pelo próprio paciente após 12 semanas⁸. O estudo parte diretamente para a fase 2 porque a psilocibina já dispõe de dados de segurança em humanos⁹.

Os dados ainda são pré-clínicos e precisam ser interpretados com cautela. Os modelos utilizaram cisplatina, paclitaxel e docetaxel. O efeito com a oxaliplatina, principal causa de neuropatia induzida por quimioterapia nos tumores gastrintestinais, ainda precisa ser demonstrado. A inclusão de pacientes com câncer colorretal no NeuroGuard deverá trazer a primeira informação clínica nesse cenário. Por ser um estudo aberto, com desfecho relatado pelo próprio paciente, seus resultados estarão sujeitos à influência da expectativa sobre o tratamento. Os efeitos psicoativos da psilocibina exigem monitorização durante a administração e seleção cuidadosa dos pacientes. A interação com antidepressivos serotoninérgicos, incluindo a própria duloxetina, precisará ser avaliada. O uso fora de protocolos de pesquisa não é recomendado. No Brasil, a psilocibina integra a lista de substâncias psicotrópicas de uso proscrito da ANVISA, o que proíbe sua produção, comercialização e uso, com exceção de pesquisas autorizadas pela agência¹⁰.

Em suma, o estudo propõe uma mudança de perspectiva no cuidado da neuropatia induzida por quimioterapia, ao buscar a prevenção de lesão, e não apenas tratar sintomas que muitas vezes se tornam permanentes. Os resultados ainda são pré-clínicos, e a confirmação clínica depende do NeuroGuard e de estudos randomizados maiores. Se confirmada, essa pode ser a primeira estratégia eficaz de prevenção para uma toxicidade que acompanha muitos sobreviventes por anos após o fim do tratamento. Além disso, o desenvolvimento de agonistas 5-HT2A sem efeito alucinógeno pode ser o caminho mais viável para uma eventual incorporação à prática.

Referências:
1. Seretny M, et al. Pain. 2014;155(12):2461-2470.
2. Loprinzi CL, et al. J Clin Oncol. 2020;38(28):3325-3348.
3. Grothey A, et al. N Engl J Med. 2018;378(13):1177-1188.
4. Jordan B, et al. Ann Oncol. 2020;31(10):1306-1319.
5. Smith EM, et al. JAMA. 2013;309(13):1359-1367.
6. Gaffney CM, et al. Nat Commun. 2026;17(1):9670.
7. Heles M, et al. Science. 2026;393(6815):eaec6116.
8. ClinicalTrials.gov. NeuroGuard: Psilocybin Trial for Preventing Chemo-induced Neuropathy. NCT07227909.
9. Agrawal M, et al. Cancer. 2024;130(7):1137-1146.
10. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SVS/MS nº 344, de 12 de maio de 1998, Anexo I, Lista F2.

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